Existem domingos que simplesmente passam pelo calendário.
E existem domingos que atravessam a gente.
Este foi um desses.
Segundo Domingo da Quaresma. Primeiro dia de março. Um daqueles dias que começam cedo, terminam tarde e deixam no corpo o cansaço de quem serviu — mas na alma deixam algo impossível de explicar com pressa.
Três missas.
Música.
Canto.
Animação litúrgica.
O tipo de domingo que exige presença inteira. E talvez por isso mesmo tenha sido tão verdadeiro.
Há muitos anos eu toco e canto na missa. Não é um hobby, não é um detalhe: é parte de quem eu sou. Mesmo com a rotina puxada — curso, rádio, trabalho, vida adulta em sua versão mais intensa — servir continua sendo um lugar de alinhamento interior. Um espaço onde o coração entende o sentido do esforço e reencontra o essencial.
Foi também um domingo de retorno. Voltar a gravar o podcast. Voltar a falar. Voltar a registrar a vida como ela é, sem maquiagem. Esse espaço que sempre chamei de audioblog nunca foi sobre performance — sempre foi sobre verdade, reflexão e escuta.
E a verdade daquele domingo aconteceu na simplicidade.
Na missa das seis da tarde, ele estava lá.
Servindo com naturalidade.
Fazendo a leitura.
Participando com aquela presença tranquila que não busca destaque — mas acaba sendo percebida. Não por esforço. Mas por coerência.
É curioso como, às vezes, a gente percebe alguém não pelo que faz, mas pelo jeito de estar. Pelo modo respeitoso de ocupar o espaço. Pelo silêncio sereno. Pela masculinidade calma, que não precisa se afirmar o tempo todo.
Depois da celebração, algo pequeno aconteceu. Pequeno apenas para quem não entende o valor dos detalhes.
Um abraço.
Entre duas pessoas adultas.
Respeitoso.
Sem ensaio.
Sem intenção calculada.
Sem pressa.
Um abraço firme e simples, daqueles que comunicam presença e humanidade. Um gesto breve, mas suficiente para suspender o barulho do mundo ao redor. Não foi longo demais, nem rápido demais. Foi adequado, sincero, verdadeiro. Um desses momentos em que o tempo parece respeitar o silêncio do gesto — e a experiência fala antes da explicação.
Não é sobre querer algo a mais.
Não é sobre criar histórias.
Não é sobre expectativa.
É sobre reconhecer que existem encontros que não pedem futuro — pedem memória.
E talvez seja isso que a Quaresma nos ensine com tanta delicadeza: a prestar atenção no que é essencial. A perceber Deus também nos intervalos da liturgia, nos gestos humanos, nas relações respeitosas, nos encontros que não se explicam — inclusive quando esse afeto nasce entre pessoas do mesmo sexo, de forma honesta e consciente.
Porque espiritualidade não é fuga do humano.
É mergulho responsável nele.
Há algo profundamente sagrado em reconhecer que o afeto existe, que a admiração existe, que o coração responde — e que tudo isso pode coexistir com fé, discernimento e maturidade. Mesmo quando a gente sabe exatamente onde está, quem é, e o que deseja viver com responsabilidade.
Não se trata de posse.
Trata-se de respeito.
De limites.
E de gratidão.
Gratidão por um domingo que aqueceu a semana inteira. Gratidão por um gesto simples que ficou registrado. Gratidão por entender que nem tudo precisa se resolver — algumas coisas só precisam ser vividas, acolhidas e guardadas com cuidado.
Às vezes achamos que somos invisíveis na vida de alguém.
E, sem saber, somos um mundo inteiro.
Que este domingo fique.
Que a semana siga leve.
E que a fé continue encontrando morada nas pequenas coisas — porque é ali que ela sempre esteve.
🎧 O episódio completo está disponível no podcast:
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