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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Tem gente que parece uma coisa… até você descobrir outra.

Tem gente que parece uma coisa… até você descobrir outra

Por Fabio — 1º de outubro de 2026




Há dias em que nada extraordinário parece acontecer e, ainda assim, alguma coisa pequena é suficiente para provocar uma reflexão enorme.

Minha quinta-feira, 1º de outubro, foi mais ou menos assim.

Começou cedo, por volta das seis e meia da manhã. Tufão, meu Labrador de 14 anos, precisava sair para fazer suas necessidades; depois vieram o desjejum, o café da manhã de minha mãe — continuo chamando de café da manhã, embora eu não tome café —, a louça, os estudos de Teologia, os materiais que estou preparando, o trabalho como professor e os vídeos destinados aos meus alunos que estão se preparando para o concurso do Detran de São Paulo.

Em outras palavras: vida normal.

Mas talvez seja justamente dentro da normalidade que algumas coisas se revelem.

Quando aquilo que vemos não corresponde necessariamente à realidade

Fui à academia para fazer meu cardio e, quase por acaso, deparei-me com uma situação que me fez pensar.

Não preciso identificar ninguém, porque a identidade da pessoa é absolutamente irrelevante para a reflexão que quero fazer. Aliás, quando se transforma uma experiência em texto, o mais importante não deveria ser expor indivíduos, mas compreender comportamentos.

O que me chamou a atenção foi perceber que alguém que, aos meus olhos, transmitia a imagem de uma pessoa solteira e desimpedida aparentemente possui um relacionamento ou compromisso.

E aqui existe uma distinção importante.

Uma coisa é alguém simplesmente preservar a própria vida particular. Ninguém é obrigado a entrar em uma academia anunciando seu estado civil, usando uma placa no pescoço ou prestando contas de sua intimidade aos demais.

Outra coisa completamente diferente é construir deliberadamente uma aparência incompatível com a realidade para obter vantagens dessa ambiguidade.

E eu sequer tenho elementos suficientes para afirmar que tenha sido exatamente isso o que aconteceu naquele caso.

Essa ressalva é importante.

O que eu vi foi suficiente para provocar uma reflexão em mim, mas não necessariamente suficiente para condenar alguém.

Talvez aí esteja, inclusive, uma primeira lição: nós sabemos muito menos sobre a vida alheia do que imaginamos.

Aparência não é caráter

Somos uma sociedade extremamente visual.

Observamos roupas, corpos, gestos, profissões, carros, redes sociais, fotografias, alianças — ou a ausência delas — e rapidamente montamos uma narrativa sobre aquela pessoa.

“Parece sério.”

“Parece solteiro.”

“Parece comprometido.”

“Parece tímido.”

“Parece fiel.”

“Parece interessado.”

Mas a palavra fundamental em todas essas frases continua sendo a mesma:

parece.

E parecer não significa ser.

Curiosamente, fazemos isso o tempo inteiro. Recebemos meia dúzia de informações e completamos todo o restante da história mentalmente.

É perigoso.

Porque, muitas vezes, não é a pessoa que nos enganou. Fomos nós que transformamos indícios em certezas.

Em outras situações, evidentemente, existe mentira. Existem pessoas que escondem deliberadamente relacionamentos, traem, manipulam, flertam enquanto mantêm compromissos e constroem personagens diferentes para ambientes diferentes.

Isso existe.

Mas é justamente por existir que precisamos aprender a separar aquilo que sabemos daquilo que apenas supomos.

A academia não é o problema

Durante o podcast eu fui bastante incisivo ao falar do “mundo da academia” e de minhas experiências anteriores.

Olhando analiticamente, porém, é preciso fazer uma correção importante: academia nenhuma possui caráter.

Pessoas possuem comportamentos.

Existem pessoas maravilhosas na Educação Física e existem pessoas péssimas no Direito, na Teologia, na Medicina, na Comunicação, dentro das igrejas e em absolutamente qualquer profissão.

Portanto, seria intelectualmente desonesto transformar experiências particulares em regra universal.

Quando digo que não quero procurar relacionamentos nesse ambiente, estou falando de uma escolha pessoal construída a partir da minha própria história.

Não estou formulando uma tese sociológica sobre profissionais de Educação Física.

São coisas diferentes.

Posso perfeitamente concluir:

“Esse ambiente não funciona afetivamente para mim.”

O que não posso concluir seriamente é:

“Quem pertence a esse ambiente é assim.”

Essa diferença parece pequena, mas é gigantesca.

Uma afirmação estabelece um limite pessoal.

A outra cria um preconceito.

E maturidade também consiste em saber distinguir as duas coisas.

E então veio a piscina…

Horas depois, fui para a natação.

Tenho experimentado fazer minhas aulas no período da tarde e, naquele dia, havia na minha raia um rapaz que me chamou a atenção.

Bonito, jovem, provavelmente na faixa dos vinte e tantos anos, e houve troca de olhares.

Achei-o atraente.

E não vejo qualquer problema em dizer isso.

Somos seres humanos. Desejo existe. Atração existe. O corpo responde a estímulos. Perceber alguém bonito não constitui promessa, relacionamento, compromisso ou projeto de vida.

Em determinado momento da aula, enquanto estávamos próximos da borda ouvindo as orientações da professora, ocorreu um contato físico provocado pela proximidade entre nós.

No podcast contei isso de maneira muito mais explícita — porque o podcast tem justamente esse tom espontâneo, informal e sem grandes filtros.

Aqui me interessa outra coisa.

O que fazemos com o desejo depois que ele aparece?

Porque sentir alguma coisa e decidir fazer alguma coisa são fenômenos completamente diferentes.

Desejo não é decisão

Talvez uma das confusões contemporâneas mais frequentes seja imaginar que todo desejo precisa ser realizado.

Não precisa.

Posso achar alguém lindo sem precisar conhecê-lo.

Posso sentir atração sem transformar aquilo em paquera.

Posso perceber reciprocidade sem necessariamente investigar até onde ela iria.

Posso sentir tesão e continuar nadando.

E foi exatamente isso.

Terminada a aula, ele permaneceu por mais alguns minutos na piscina. Eu poderia ter ficado também.

Não fiquei.

Fui para o vestiário, troquei de roupa e voltei para casa.

Não porque exista algo errado com o desejo.

Mas porque eu sei aquilo que estou procurando para minha vida — e também aquilo que não estou procurando.

Essa talvez seja uma das formas mais concretas de liberdade: poder fazer alguma coisa e, ainda assim, escolher não fazer porque aquilo não corresponde ao que você deseja construir para si.

Nem todo encontro precisa virar uma história

Vivemos uma época curiosa.

Um olhar precisa virar flerte.

Um flerte precisa virar encontro.

Um encontro precisa virar sexo.

Sexo precisa virar alguma coisa — ou, dependendo da lógica adotada, não precisa virar absolutamente nada.

Eu não penso assim.

Algumas pessoas simplesmente passam por nossa vida durante cinquenta minutos de uma aula de natação.

E está tudo bem.

Podem ser bonitas.

Podem despertar desejo.

Podem render uma lembrança divertida.

Podem até proporcionar aquele momento em que você pensa: “Meu Deus do céu…”

E acabou.

Não existe obrigação de transformar toda possibilidade em experiência.

Nem toda porta que se abre precisa ser atravessada.

Saber o que não quero também é autoconhecimento

Há uma frase que repito há bastante tempo: eu sei muito bem o que quero viver na minha vida. Não posso exigir que outra pessoa queira viver exatamente o mesmo que eu, mas posso procurar alguém que queira.

Essa diferença é fundamental.

Não tenho o direito de exigir que alguém compartilhe minha visão sobre fidelidade, compromisso, monogamia, amor ou sexualidade.

As pessoas são livres.

Mas essa liberdade funciona nos dois sentidos.

Elas podem escolher o modo como querem viver.

E eu posso escolher com quem desejo compartilhar a minha vida.

Não preciso converter ninguém ao meu modelo afetivo.

Preciso apenas encontrar alguém cujo modelo seja compatível com o meu.

Isso elimina uma quantidade enorme de conflitos.

Porque relacionamentos não deveriam começar com a esperança de reformar o outro.

“Depois ele muda.”

“Quando começar a gostar de mim, muda.”

“Comigo será diferente.”

Talvez seja.

Talvez não.

Eu prefiro observar aquilo que a pessoa efetivamente demonstra ser.

Talvez a maior descoberta tenha sido outra

No primeiro momento, pensei que a grande manchete daquele dia fosse:

“Tem gente que parece uma coisa… até você descobrir outra.”

Continuo achando uma boa frase.

Mas, pensando melhor, existe uma camada ainda mais interessante.

Às vezes, não descobrimos apenas algo sobre o outro.

Descobrimos alguma coisa sobre nós mesmos.

Descobrimos que determinada situação já não nos seduz como seduzia antes.

Que uma beleza física continua chamando nossa atenção, mas já não é suficiente para determinar nossas escolhas.

Que podemos desejar alguém sem criar uma fantasia inteira ao redor daquela pessoa.

Que podemos observar sem possuir.

Sentir sem perseguir.

Gostar sem transformar aquilo em expectativa.

E seguir adiante.

Talvez amadurecer tenha alguma coisa a ver com isso.

Entre a atração e aquilo que realmente buscamos

Não virei assexual.

Não parei de olhar.

Não deixei de achar homens bonitos.

Muito menos deixei de sentir desejo.

Nada disso.

O que mudou com o passar dos anos foi o peso que cada uma dessas coisas ocupa naquilo que considero importante.

A atração pode iniciar uma história.

Mas dificilmente consegue sustentá-la sozinha.

Depois do corpo vêm caráter, conversa, afeto, compatibilidade, confiança, disponibilidade emocional, respeito, companheirismo e uma infinidade de pequenas coisas que nenhuma fotografia revela.

Talvez por isso seja tão perigoso apaixonar-se pela versão que imaginamos de alguém.

A pessoa real sempre será mais complexa do que nossa projeção.

No fim, voltei para casa

Depois da natação, voltei para casa.

Tomei banho para tirar aquele cheiro de cloro que parece grudar na gente, sentei um pouco com minha mãe, conversamos, ajudamos um ao outro com o jantar, lavei a louça e deixei o lixo praticamente preparado para a coleta da manhã seguinte.

Depois subi para o quarto.

A vida voltou imediatamente àquilo que ela quase sempre é.

Simples.

Cotidiana.

Real.

E talvez por isso este podcast se chame DA VIDA REAL.

Porque a vida real é justamente essa mistura improvável de trabalho, família, cachorro, livros, Teologia, Direito, academia, desejo, decepções, descobertas, risadas, responsabilidades, louça para lavar e lixo para colocar na rua.

Não vivemos apenas grandes acontecimentos.

Vivemos principalmente essas pequenas cenas.

E algumas delas nos ensinam muito.

No final das contas…

O dia terminou me lembrando de três coisas.

Nem tudo aquilo que parece é.

Nem tudo aquilo que desejamos precisa ser vivido.

E saber aquilo que queremos para nossa própria vida é muito diferente de exigir que os outros vivam da mesma maneira.

Cada pessoa fará suas escolhas.

Eu continuarei fazendo as minhas.

E, teimosamente, continuarei procurando alguém que não precise representar um personagem para caber nelas.

Alguém que queira viver algo parecido com aquilo que eu também quero viver.

Enquanto isso?

Vida que segue.

Com trabalho, Teologia, Direito, natação, Tufão, minha mãe, podcast, algumas surpresas pelo caminho e histórias suficientes para continuar falando por aqui.

Porque, no fim das contas, é tudo DA VIDA REAL.


🎙️ Podcast do Fabio — DA VIDA REAL
Episódio de 1º de outubro de 2026

🎧 Ouça o episódio completo:
www.podcastdofabiotv.com.br

E você? Já aconteceu de descobrir que alguém era muito diferente daquilo que você imaginava? Ou de perceber que uma atração podia simplesmente continuar sendo uma atração, sem precisar virar uma história?

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