
Por Fabio Tadeu
Há dias em que acreditamos ter tudo planejado.
A pauta está pronta, os assuntos organizados, a rotina cumprida, as ideias em ordem. Mas basta uma lembrança surgir silenciosamente para que toda a programação da vida seja reescrita.
Foi exatamente isso que aconteceu comigo neste 8 de julho.
O episódio do podcast começou como tantos outros: falando sobre disciplina, saúde, trabalho e projetos. Terminou, porém, falando sobre amor, memória, saudade e esperança.
E talvez essa seja justamente a beleza da vida.
A disciplina que transforma
Meu dia começou cedo.
Pouco depois das seis da manhã, fui cuidar do Tufão, meu velho companheiro de quatro patas, antes mesmo de preparar o café da manhã de minha mãe.
Depois vieram as tarefas comuns de qualquer filho que divide a vida com uma mãe de 133 anos: ajudá-la, organizar a casa e acompanhá-la à consulta médica para tratar a gonartrose, uma realidade presente na vida de tantos idosos.
Entre um compromisso e outro, encontrei tempo para escrever dois sermões destinados à Comunidade Cristã Voz & Fé, a igreja inclusiva que venho construindo com tanto carinho e convicção.
Mais tarde, vieram a aula de natação pela manhã e os quarenta e cinco minutos de esteira no fim da tarde.
Parece rotina.
E é.
Mas é justamente a rotina que muda destinos.
No início deste ano eu estava próximo dos 150 quilos.
Hoje estou na casa dos 126.
São mais de vinte quilos deixados para trás.
Não foi um milagre instantâneo.
Foi uma coleção de pequenas decisões repetidas diariamente.
Uma esteira de cada vez.
Uma aula de natação de cada vez.
Um pão a menos.
Uma escolha mais consciente.
A transformação raramente acontece em um único dia.
Ela acontece quando um dia comum é repetido centenas de vezes.
Academia não é lugar para procurar amor.
Durante muitos anos pensei diferente.
Como tanta gente, imaginei que talvez o amor pudesse aparecer em qualquer lugar.
Inclusive dentro de uma academia.
Hoje penso exatamente o contrário.
Academia é lugar para cuidar da saúde.
Ponto.
Os músculos envelhecem.
A beleza muda.
O corpo inevitavelmente se transforma.
Quem vive apenas em função da aparência acaba descobrindo, cedo ou tarde, que ela é passageira.
Costumo brincar dizendo que quem gosta exclusivamente de corpo é o médico legista, o coveiro e, como aprendi recentemente com os ouvintes, também o tanatopraxista.
É uma frase provocativa.
Mas ela esconde uma verdade importante.
Nenhum relacionamento sólido permanece apenas porque alguém possui um corpo bonito.
A vida cobra muito mais do que isso.
Cobra caráter.
Lealdade.
Companheirismo.
Respeito.
Fidelidade.
Crescer também é mudar
Nem sempre fui assim.
Houve uma época em que vivi intensamente.
Também tive fases superficiais.
Também procurei felicidade onde ela não existia.
Também me deixei levar por ilusões.
Hoje olho para aquele rapaz mais jovem quase com ternura.
Ele precisava viver tudo aquilo para compreender que o vazio nunca é preenchido por relações descartáveis.
Aprendi que maturidade não significa deixar de sentir.
Significa aprender onde vale a pena investir o próprio coração.
O amor verdadeiro não desaparece
Eu não esperava falar sobre isso no podcast.
Na verdade, sequer havia pensado nesse assunto durante o dia.
Mas basta uma música tocar para que certas portas da memória se abram.
Foi assim que Toshi voltou.
Toshiaki.
O homem com quem eu realmente planejava construir uma vida.
Não era um romance passageiro.
Não era entusiasmo juvenil.
Era projeto.
Era compromisso.
Era futuro.
Falávamos sobre morar juntos.
Sobre envelhecer juntos.
Sobre dividir a vida.
A morte, porém, decidiu escrever outro roteiro.
Existem pessoas que passam pela nossa existência apenas por um período.
Outras permanecem para sempre.
Mesmo depois de partirem.
O significado de um anel
Há muitos anos uso um anel preto com uma discreta faixa dourada.
Pouca gente conhece sua verdadeira história.
O preto representa as perdas inevitáveis da vida.
Todos perderemos pessoas.
Todos enfrentaremos despedidas.
Todos conheceremos o luto em algum momento.
Mas a linha dourada atravessa exatamente o centro do anel.
Ela simboliza aquilo que permanece.
Deus.
O amor.
A esperança.
Mesmo quando tudo parece escuro, existe uma linha dourada sustentando a história.
Talvez seja exatamente isso que a fé represente.
Não a ausência da dor.
Mas a certeza de que a dor nunca terá a última palavra.
O amor continua sendo possível
Muita gente imagina que lembrar de alguém significa permanecer preso ao passado.
Não acredito nisso.
Guardar gratidão não impede novos começos.
Se um dia Deus colocar alguém novamente em meu caminho, saberei retirar aquele anel e entregar meu coração por inteiro outra vez.
Porque amar nunca foi meu problema.
Meu desafio sempre foi encontrar alguém que desejasse viver o mesmo tipo de amor que eu.
Continuo acreditando na fidelidade.
Continuo acreditando em projetos construídos a dois.
Continuo acreditando que vale mais dividir uma vida inteira com uma única pessoa do que colecionar encontros que desaparecem no dia seguinte.
Ainda acredito nisso.
Teimosamente.
A vida mudou o roteiro
Quando comecei a gravar aquele episódio, imaginava falar sobre academia, rotina, emagrecimento, rádio, ministério e trabalho.
No final, tudo mudou.
A saudade assumiu o microfone.
E talvez tenha sido melhor assim.
Porque a vida raramente segue o roteiro que escrevemos.
Ela escreve o próprio texto.
Nós apenas aprendemos a interpretá-lo.
Naquela noite, compreendi novamente que algumas pessoas nunca deixam realmente de caminhar ao nosso lado.
Elas continuam presentes na memória.
Na gratidão.
Nas escolhas.
Na forma como aprendemos a amar.
E talvez seja exatamente por isso que continuo acreditando, apesar de tudo.
Porque, no fim das contas, existe uma frase que resume toda essa história:
Nesta vida, mais vale ter amado e perdido do que nunca ter amado.

⸻
Fabio Tadeu
Advogado • Teólogo • Professor • Radialista • Pastor Presidente da Comunidade Cristã Voz & Fé • Fundador da Drops Jurídico
“O amor verdadeiro talvez não elimine a saudade. Mas transforma a saudade em gratidão por tudo aquilo que um dia tivemos a graça de viver.”
Nenhum comentário:
Postar um comentário